Um dia, cérebro e coração conversavam sobre seu relacionamento. Ambos concordavam a que dependência não é a forma mais sincera de relação, mesmo que parecesse ser a mais cômoda. Perceberam então que dependiam sim um do outro, mas que já não se completavam tão bem quanto antes.
Conversaram por horas.
Cérebro então disse que precisava de um tempo para pensar mais na vida, para planejar o futuro e se aperfeiçoar. Cérebro sentia falta de emoção. Enquanto isso, coração disse não gostar de bater sozinho, que precisava se apaixonar e sentir-se apaixonante a cada dia. Coração sentia falta de emoção.
Conversaram por horas.
Combinaram então que, em nome da parceria que tiveram por tanto tempo, buscariam individualmente o melhor para ambos. Já conheciam todos os detalhes sobre estarem juntos, com seus altos e baixos. Decidiram juntos que seria bom descobrir um outro ponto de vista sobre a mesma história, o ponto de fora.
Depois de tanto tempo juntos crando e fazendo um grande corpo crescer, tiveram vontades e necessidades próprias. Não conseguiriam mais dar comandos sincronizados para fazer com que esse corpo firme e crescido se movimentasse em uma só direção. Porque cérebro queria alcançar o céu e coração queria conquistar a terra.
Abriram mão desse corpo. Saindo fora da proteção inegável que ele oferecia, viram-se frágeis, vulneráveis, confusos. Coração então convidou cérebro para conversar e esclarecer algumas coisas, contar e conhecer as novas experiências que tinham tido nesse curto tempo.
Conversaram por horas.
Decidiram então voltar ao corpo recém abandonado. Esqueceram-se porém que um corpo sem cérebro nem coração não se sustenta sozinho. Ao voltar encontraram um corpo doente, estava fraco e já com seqüelas. Coração e cérebro já não tinham mais seus lugares esperando por eles, não eram mais posições intocáveis, não era mais um corpo confortável.
Coração então se pôs a pensar, cérebro então se pôs a sentir. E assim, mais uma vez, não estavam em sintonia. Precisavam conversar, mas nada mais havia para ser dito.
Desprotegidos pelo corpo, cérebro e coração começarão agora uma nova tentativa: construir e fazer crescer, cada um, um novo corpo diferente. E descobrir se sozinhos conseguem fazer algo tão forte e grande quanto o que tinham antes.
(1)Para fugir do