Enquanto eu esperava meu ônibus chegar, um homem que passava na rua me chamou atenção. Sujo, entre bêbado e drogado, sozinho, ele lutava. Eram socos, chutes, xingamentos ao vento. Teve até mesmo uma pedra que ele pegou do chão pra atacar em seu inimigo invisível (mas desistiu porque, na lógica individual dele, teve o julgamento de que seria uma coisa errada). Ele fazia tudo isso andando. Entre pontapés e maldizeres, a caminhada era ininterrupta.
As pessoas ficaram olhando. Algumas achavam graça e riam, outras pareciam tristes com aquele olhar de “Onde vamos parar? Onde já se viu? É nisso que dá beber tanto!”. Mas acho que não perceberam o que me pareceu óbvio: todos nós passamos por isso.
A verdade é que todos nós lutamos. Sem saber contra quem, sem saber quando a luta termina, todos nós lutamos. O pugilismo é natural da sobrevivência. Essa coisa de se defender de ameaças que só a gente vê enquanto outros muitas vezes riem da gente, julgando superficialmente o que lhes parece loucura. Às vezes a gente toma um golpe baixo e não tem juiz pra ver e mandar parar. Então a única saída é segurar a dor e levantar de novo, com cabeça erguida e pronta pra tomar mais quantos socos e tapas forem necessários.
Mas também, claro, a gente dá muita porrada por aí. Por reflexo ou por raiva, às vezes sem nem saber direito o que tá fazendo. Faz gente chorar e sentir dor, causa sensações de derrota sem se sentir vitorioso. É uma luta diária e sem regras, sem lógica inclusive.
Enquanto vinha pro trabalho, dentro do ônibus, fiquei torcendo pelo cara. Torci pra que ele não ganhasse aquela briga e continuasse lutando, e andando, e seguindo em frente vivo. É necessário ter uma emoção constante, uma revolta que motive a seguir insistindo em pequenas grandes causas individuais. Pelo estado do homem que vi, talvez aquela fosse a última batalha pessoal dele. Então, que não termine, que seja forte em sua loucura.
(sim, eu tenho uma coisa meio freak-do-saco-plástico do Beleza Americana, e daí?)

5 responses so far ↓
Tati // October 21, 2009 at 7:02 pm |
Texto showww…é bem isso mesmo!
João Aranha // October 21, 2009 at 7:58 pm |
Belo texto e bela reflexão. Todos os dias lutamos com um monte de coisas, nem sempre ganhamos, mas é bom estar no ringue, sempre. E levantar, mesmo perdendo, é a grande vitória. Parabéns, Lígia! Beijoão
Matheus Tapioca // October 22, 2009 at 4:59 pm |
Muito bacana a comparação!!
Ari // October 22, 2009 at 5:16 pm |
Parabéns!
Já é uma riqueza alguém pensar por estes caminhos e saber registrar com esta agradabilidade.
Que Deus te ilumine menina
Vitano // October 23, 2009 at 4:47 pm |
Gostei…é isto que torna a vida tão bela, de um pensamento Freak solta uma reflecção tão interessante..