Cheguei em casa bem cansada. Mas depois da conversa surreal que tive com o taxista, achei que apesar do cansaço valia a pena ligar o computador e escrever antes que minha memória apagasse alguns detalhes. (até porque, certeza que amanhã, mais uma vez, não terei tempo de escrever)

Abro a porta de trás, entro no taxi um pouco distraída e o taxista não diz nada. Alguns segundos depois ele olha pra minha cara e pergunta:
Ele: – cansada?
Eu: – cansada, bem cansada, e um pouco triste.
Ele: – por quê? O que aconteceu?
Eu: – nada grave, ainda bem. Só trabalho mesmo.
Nesse momento percebi que ainda estávamos no mesmo lugar e interrompo:
Eu: – sabe pra onde a gente vai? (perguntei assim porque pelo telefone eu já tinha dito)
Ele: – não, não sei. Me conta?
Depois que eu disse o endereço, ele continua a conversa anterior:
Ele: – em que área você trabalha aí?
Eu: – na propaganda.
Ele: – o que você acha da maconha?
(mentalmente me perguntei se eu tinha mesmo ouvido certo, mas depois de perceber que sim, continuei)
Eu: – olha, eu já achei muito mais coisa do que acho hoje.
Ele: – ah, desculpa, é que você falou que tava triste e tal. Achei que ia querer fumar…
Eu: – é, mas sei que a maconha não vai resolver meu problema não.
Ele: – e qual é seu problema?
(falei um pouco de trabalho sem muitos detalhes)
Ele: – mas você é uma moça nova ainda… quantos anos você tem?
Eu: – quantos anos parece que eu tenho?
Ele: – uns 23…
Eu: – tenho 27. A gente cansa mais rápido quando tem 27. Quantos anos vc tem?
Ele: – 22.
Eu: – pois com 27 você vai ver que a maconha só distrai, não resolve nada.
Ele: – mas você acredita em Deus?
Eu: – acredito sim. Por quê?
Ele: – porque eu tava vendo um livro na loja de conveniência do Ipiranga daquele outro Padre que não é o Padre Marcelo. É daquele outro, o Fábio de Melo. E eu achei muito louco que na capa tem um cara tirando como se fosse uma casca de frente do rosto. O título é “Quem me roubou de mim?”.
Eu: – e você já leu?
Ele: – não, não acho legal ler livro de loja de conveniência.
Eu: – ah… mas você acredita em Deus?
Ele: – depois que eu fumei maconha sim.
Eu: (pensei um pouco e pedi) – me explica.
Ele: – é que assim, eu era um cara todo certinho. Eu era vegetariano, não jogava lixo na rua, mas comecei a gostar de filosofia sabe?
Eu: – ah, legal, e que autor você mais lê?
Ele: – Nietzsche.
Eu: – tá, um louco. Mas me explica a relação de maconha com Deus…
Ele: – é que quando você fuma maconha aumenta a sinapse entre os neurônios, é como se aumentasse a corrente elétrica e iluminasse mais as coisas, daí eu comecei a entender que a razão não alimentava meu corpo de saber completamente e achei que tem que existir alguma coisa, alguma força que os cristãos chamam de Deus e que faz com que nós, seres humanos, somos os únicos que tentamos entender nossa existência e mudamos nosso ambiente. [nota: eu não pontuei essa frase porque ele falou tudo isso assim, numa respirada só!]
Eu: – é, faz algum sentido…
Ele: – pô, você é uma moça tão legal, pena que mora tão perto.
Eu: – se eu saísse a essa hora e morasse longe, acho que dormia lá na portaria mesmo.
Ele: – quer uma bala? (a essa altura eu fiquei até desconfiada sobre o que ele estaria querendo dizer com “bala”)
Eu: – não moço, brigada, eu tô é com fome. Vou chegar em casa e comer.
Ele: – e você tá fazendo algum curso? Tá malhando?
Eu: – olha a hora que eu to saindo do trabalho, moço. Você acha mesmo que eu tenho malhado?
Ele: – e você namora?
Eu: – não, não mais.
Ele: – e não pensa em voltar?
Eu: – eu não, moço. Já vai fazer um ano que terminei o namoro e muita coisa aconteceu depois disso.
Ele: – namorada ou namorado?
Eu: – namorado. Um namorado que adorava Nietzsche aliás…
(chegamos)
Ele: – pô, que legal que você curtia um cara que curtia Nietzsche.
Eu: – É… mas um dia o cara se apaixonou por outra e foi viver a vida dele. E sobre Nietzsche, continuo achando um louco, meio doente.
Ele: – mas lê, você vai gostar.
Eu: – eu não, já sou cética demais sem ler Nietzsche, dispenso. Eu até já tentei, mas não consegui terminar não.
(já com a porta aberta havia um tempão, fiz movimento para sair do carro)
Ele: – sabe o que achei engraçado?
Eu: – hum?
Ele: – você dizer que muita coisa aconteceu depois do seu namoro.
Eu: (surpresa) – mas é verdade, ué…
Ele: – tchau, boa noite, descansa hein?
Eu: – tchau, valeu, bom trabalho.
O.o