Na frente do prédio, um carro de polícia parado e outro que partia. Na calçada, conversando com dois policiais, o zelador do prédio e o porteiro que, pelo horário, já deveria ter ido embora.
Caminhei curiosa pelo corredor até o hall de entrada. Perguntei para o porteiro que tinha acabado de começar o turno e, enquanto o elevador não chegava, ele me contou o que tinha acontecido.
“- Lembra que outro dia você chegou e eu tava conversando com uma senhora aqui? Do 22? Então, ela se matou.
- Quando isso, hoje?
- Não, faz uns quatro dias. Notaram por causa do fedor. Arrombaram o apartamento e encontraram ela (sic) enforcada.
- Mas gente, como assim? Ela morava sozinha, não tinha parentes? Ninguém sentiu a falta dela?
- Tinha parentes, mas eles não vinham. Estão vindo agora buscar o corpo, tá aí ainda. Se você sentir algum cheiro forte, é dela.
- Tá…”
Uma pessoa morreu e ninguém sentiu falta. Ficou quatro dias sem dar nenhum sinal de vida, irônica e literalmente, e não vieram saber o que tinha acontecido. Decidiu acabar com a própria vida provavelmente por causa da tristeza do abandono, por se sentir sozinha demais. E mesmo assim, não chamou a atenção de ninguém. Só quando começou a incomodar.
Eu não a conhecia e consequentemente sou mais uma pessoa que não sentirei sua falta. Não sei que cara ela tinha, nem que idade, nem nada. Sei só que três andares abaixo de mim, acredita-se que num sábado absurdamente lindo, ela decidiu que não queria mais viver.
E isso me fez pensar mais forte em coisas que penso todos os dias. Eu quero e vou viver toda a vida que tiver na minha frente. Eu pretendo incomodar pessoas em vida, pra que elas sintam falta de mim e me tirem de alguma ausência de felicidade. Eu faço questão de fazer amigos novos e manter amigos velhos. Eu gosto de dar risada e de sentir o sol quente no meu rosto. Eu gosto muito de mim mesma.
É claro que é difícil explicar tudo que estou vivendo nos últimos dias. Mas o bom é que eu simplesmente não tenho que explicar nada.
Porque se me perguntarem se isso é certo ou errado, eu vou dizer que estou feliz sem fazer mal a ninguém e, sinceramente, é só o que importa. E se me perguntarem como eu vejo essa história no futuro, então sou eu quem pergunto: que futuro? O futuro uma hora chega e de qualquer jeito vai ser como tiver que ser, eu é que não vou me preocupar com isso.
Se disserem que eu estou me arriscando, vou lembrar que é justamente aí que está o frio na barriga, a emoção disso tudo. E quando me lembrarem que eu posso acabar me machucando, vou agradecer a preocupação carinhosa e dizer que sei disso, porque existem mil formas de quebrar a cara nessa vida. Já tenho arranhões e cicatrizes, sei lidar com isso.
Por ora, vou continuar me dedicando ao agora e fazer dele o melhor que puder ser. Eu gosto de me sentir assim, inconseqüente e indiscutivelmente bem.
A verdade está no olhar, em detalhes sutis, gestos pequenos. Tem coisa que ninguém precisa entender, só sentir. E pronto, é bom assim, sabe? Nada, absolutamente nada precisa ser mais do que simplesmente bom.
Depois das férias, algumas pessoas me perguntaram sobre a volta, sobre como estaria sendo difícil tornar a trabalhar depois de 31 dias longe de tudo e de todos. Confesso que acordar com o despertador depois de tanto tempo não foi das coisas mais fáceis, mas na verdade eu estava me sentindo renovada.
Acontece que quando cheguei ao trabalho, percebi que mesmo tendo ficado fora, não fiquei totalmente ausente da vida de alguns dos meus amigos do trabalho. Fui recebida com demonstrações de carinho das mais variadas.
Mas uma delas eu preciso compartilhar. Lembram deste post? Pois é, entre uma das coisas que fizeram meu coração ficar mole, estava um diário que dois amigos fizeram sobre o que sentiam enquanto eu viajava. Fofos. E o diário termina assim:
São alguns detalhes e algumas demonstrações como essas que fazem a gente lembrar qual é o nosso lugar certo. É por pequenas coisas como essas que “voltar” pra casa é tão bom.
De vez em quando eu entro no Youtube com um único propósito: dar risada. Nessas horas, tem alguns vídeos que eu simplesmente não me canso de ver. Mesmo na décima vez, ainda acho graça. É o caso dos videoclipes “Literal Version“, como esse do RHCP:
Felicidade tem gosto de coisa suja, de tudo aquilo que não se pode ou não se deve.
É gosto de cerveja com cheiro de cigarro, de perfume misturado com suor, do doce mais doce e calórico. Gosto e sabor um pouco ácido. Gosto.
A felicidade definitivamente não está no amor, está na ousadia. Está em ser surpreendido por pessoas previsivelmente criativas, de se reinventar a cada dia buscando mil maneiras de chegar sempre ao mesmo lugar, de ter sempre a mesma sensação.
É traiçoeira como um vício, a gente prova um pouco e gosta, e quer mais e sempre um pouco mais. Faz a gente ir além do que pretendia para conseguir alcançá-la, ajuda a gente se conhecer melhor a cada dia e descobrir que tem mais força e coragem do que imaginava. Felicidade tem limite? Uma pessoa que quer ser feliz tem algum limite? [não estamos falando aqui de ética e valores, mas sim de vontade e iniciativa]
Analisando friamente, a felicidade é um risco, e como toda aposta arriscada, dá um prazer maior quando se ganha. Felicidade é estar com quem se confia, e ser livre para falar o que pensa, não ter medo de ser julgado.
Eram profundos e tristes olhos castanhos, como se estivesse olhando sempre para um futuro de sombras. Alguns diziam que era justamente no mistério de seus pensamentos que estava sua beleza, naquela expressão contínua e indecifrável que levava sempre consigo.
Tinha vários amigos, mas morava na solidão, em uma sensação particular de incompatibilidade generalizada.
Numa terça-feira nublada qualquer, ao acordar, deu-se conta de tudo aquilo que não sentia. Percebeu que sofria de uma doença (ou uma dádiva), era incapaz de sentir emoções. E percebeu isso assim, como quem constata que azul é azul e vermelho é vermelho.
Passou então a brincar com isso, talvez pela esperança inútil de se divertir, talvez pela simples curiosidade de experimentar as diferentes sensações sem significados. Viveu sem frio na barriga namoro após namoro, sem lágrimas passou pela morte de pessoas convencionalmente chamadas de queridas, escolheu um time de futebol mas achou sem graça torcer.
Como não sabia o que era ansiedade, passou por sua vida sem comer demais, sem roer unhas, sem fumar e sem ter insônias. Nunca entendeu o que as pessoas queriam dizer com “frio na barriga” mesmo sendo pleno verão. Não sofreu a espera de um encontro marcado, do resultado de uma entrevista de emprego ou de uma data importantíssima.
Dor para ele era somente física, como topada de dedinho ou mordida na língua. Era daí que surgiam suas lágrimas. Ria de cócegas, mas achava somente curioso que certos lugares quando tocados acabassem despertando os músculos de sua face.
Assim foi atravessando seus dias, um a um passados sem algo que despertasse dentro de seu peito algo diferente ou imprevisto. Era como uma máquina, reagindo a estímulos de forma totalmente racional.
Até que um dia, já com idade avançada, deparou-se com uma inocente pergunta inusitada: “qual a memória mais marcante de sua vida?”. Pensou em tudo pelo qual tinha passado como quem procura uma ficha de cadastro entre os clientes de um dentista.Vasculhou sua memória até os primeiros sinais de cansaço. Surpreendeu-se em não conseguir responder.
Notou que sua ausência de emoções tinha lhe tirado todo o sabor dos dias. Passou pela vida sem viver. Neste dia, horas antes de sua morte, chorou disfarçadamente.
não tem tema, não tem foco, não tem regra, não tem periodicidade de atualização, não tem compromisso com nada, não tem compromisso com ninguém, não tem a intenção de agradar, não tem a intenção de ofender, não tem fins lucrativos, não tem pé nem cabeça e muitas vezes não tem noção das coisas.