Nós

5 meses, 6 dias, 12 horas, 13 minutos. Essa é a idade da minha filha neste exato momento. E sim, o tempo passa rápido. Ao continuar escrevendo ela já vai ter outra idade. Mas faz esse tempo, desde que ela chegou, que uma coisa acontece com certa frequência: de vez em quando olho pra ela e tenho vontade de chorar.

Às vezes choro, na grande maioria das vezes fico com o nó na garganta. São vários nós guardados até hoje, bem apertados.

São perguntas que me passam pela cabeça. A primeira delas é um tanto nostálgica – “ela cresce, rápido, não é mais minha. ter um filho é perder um filho?” Muitas vezes me emociono de orgulho, vendo as coisas que ela já consegue fazer – “isso minha filha, que lindo isso! parabéns! e agora?”

Mas muitas vezes me vem o medo, vários tipos dele – “como eu faço pra não decepcionar nunca essa menina tão perfeita, gente? que tipo de pessoa eu posso ser pra ela? o que eu posso fazer pra que ela tenha orgulho de mim? e se eu amar demais e sufocar essa garotinha?”

Manter Marina saudável, limpa, quente e bem alimentada é uma tarefa muito pequena perto dos desafios que comecei a viver desde que ela nasceu. Eu renasci, nós nascemos, nós nasceram.

Mãe e só

Por mais bem acompanhada que eu esteja desde que minha filha nasceu, ser mãe é a experiência mais solitária que já vivi.

Uma sucessão de anulações voluntárias de vontades e necessidades particulares que ficam sempre em segundo plano, aquele adeus à sua individualidade, seu antigo jeito de ser, antes mesmo que um novo esteja estabelecido. Um amor que, como nenhum outro conhecido por mim até hoje, cansa. Cansa demais.

Os julgamentos e palpites inevitáveis vindo de absolutamente toda a parte, mesmo que de forma inconsciente. A privacidade que simplesmente deixa de existir, onde quer que você esteja. O bloqueio social do instinto natural. É difícil.

Mas estou indo, aguentando, de alguma forma evoluindo. Talvez porque minha neném seja a melhor neném. Cheia de saúde e de sorrisos. Maravilhosa. Me recompensando a cada passo que dou, me aceitando e entendendo o quanto eu a amo, o quanto estou me dedicando integralmente, o quanto hoje não existe absolutamente nada mais importante pra mim. Nem mesmo eu.

Me desculpa.

Tempos atrás, divagando sobre o futuro, costumava dizer quando o assunto vinha à tona: quero um filho menino. Até que engravidei e, entre todas as mudanças físicas e psicológicas que essa fase nos traz, essa preferência simplesmente se apagou. Puft! Virou fumaça. Fim.

Os desejos se tornaram mais simples e muitos deles relacionados ao medo. Principalmente o de ser incompetente como mãe. Por favor tenha saúde, por favor tenha todos os dedos, por favor tenha nariz.

Na primeira vez que pude ver a pessoa que mora aqui na minha barriga, esses medos sumiram. Tinha tudo o que tinha de ter até então. Estava forte. Coraçãozinho forte e ritmado. Nunca tive uma sensação de alívio maior em 33 anos de vida. Era uma felicidade só!

Na semana passada nos vimos de novo. Só eu e o pai vimos, na verdade. E entre outras confirmações de que estava tudo bem, soubemos que minha barriga é de uma menina. Curiosamente, só tínhamos pensado em um nome. Marina. Está forte, chuta forte, coração forte.

Eduardo Cunha aconteceu antes de eu conhecer Marina. Bancada evangélica aconteceu antes de eu conhecer Marina. Valentina Masterchef aconteceu antes de eu conhecer Marina. Think Olga aconteceu antes de eu conhecer Marina. Redação do Enem aconteceu depois de eu conhecer Marina. Comentários sobre a redação do Enem aconteceram depois de eu conhecer Marina.

E hoje estou aqui. Quem me conhece pessoalmente sabe que não sou uma mulher delicada. Sou sincera, às vezes demais. Sou agressiva quando me sinto agredida. Tenho minhas qualidades (e quem não tem?), mas não sou fofa. E muitas vezes me pego procurando e criando respostas para todo tipo de questões. Agora, para os novos questionamentos que me cercam.

Quando Marina chegar e eu tiver que mostrar pra ela o mundo que tem aqui fora, vou tentar proteger sem cegá-la. Vou ter que dar respostas que eu não tenho até hoje. Entre elas o fato de que, mesmo tendo acabado de chegar, pessoas a odeiam. Acham ela uma vagabunda, acham que ela tem que transar mesmo sem ter vontade pra satisfazer alguém, acham que ela “já aguenta”, acham que ela sabe muito bem o que quer quando ainda nem conhece direito seu próprio corpo. Vou ter que agir com alguma naturalidade simulada quando ela disser que tem medo de caminhar na rua pela forma que olham para ela?

Marina ainda não nasceu. Tudo o que sabemos é que, sim, ela tem um nariz e 20 dedinhos. E vai nascer com um órgão sexual feminino. Pode ser que ela não se identifique como menina, pode ser que ela se identifique e goste de meninas, pode ser que ela se identifique e goste de meninos. São 3 possibilidades. E em qualquer uma das 3, ela será agredida. E mesmo sem nenhuma dessas possibilidades ser uma escolha, ela se sentirá culpada. E mesmo que nós, papai e eu, tentemos dizer que ela não tem motivos para se sentir assim, seremos minoria.

Marina, tenho até março para consertar o mundo que darei de presente a você. Não vai dar tempo. Não tenho forças. Me desculpa.

Mas estaremos juntas. Mais até do que hoje em dia.

Com amor,
Mamãe.

O que o dinheiro não compra

Estranho voltar aqui depois de tanto tempo. É uma sensação parecida com a que tive recentemente, visitando um dos lugares onde passei minha infância, e percebendo que, independente de mim, o tempo passou. As coisas mudaram. Eu mudei.

Este é um blog intimista. Aqui, não escrevo esperando que ninguém me entenda, que ninguém concorde, que ninguém diga que já viveu coisas parecidas ou algo assim. Sério.

Escrever aqui sempre foi pra mim uma forma de entender melhor as coisas que estavam acontecendo, não de me expressar. Expressar é consequência. Por exemplo: hoje estou confusa. Escrever isso é mais um aviso para mim mesma do que uma confissão a vocês.

E a confusão é racional. Tenho 31 anos e me falta um plano B. Hoje enxergo as coisas com menos inocência e mais clareza: estou vendendo minha tranquilidade por um preço baixo demais, tanto que começo seriamente a pensar em compra-la de volta.

Não sei ainda como vou conseguir, mas já sei de uma das coisas que preciso parar de fazer: não fazer. Sou craque em pensar, em ter ideias que parecem incríveis e, alguns dias depois, me boicotar e começar a achar que era uma ideia bunda. Não tirar do papel. Não chegar nem a tentar.

Em breve começarei a colocar em prática um novo projeto pessoal. Falar assim dá um tom de importância, né? Parece até artista dando entrevista pro Jô com respostas evasivas para disfarçar um “isso não é da sua conta!”. Pois bem, assim que eu tiver novidades, isso será da conta de vocês. Da conta de todo mundo. Fiquem ligadinhos! ;)

Pra quem não estiver aqui lendo pela primeira vez, vale um adendo. Minha vida pessoal continua boa, ótima, incrível. Realmente encontrou o rumo do que eu no meu subconsciente infantil antes tinha como perfeição. E que depois, já adulta, passei a achar que era impossível se tornar realidade. Agora, sobre isso, me dou ao direito de ser egoísta e compartilhar menos. Pra guardar pra mim todas as coisas boas que continuo vivendo.

Pensando alto #15

A sensação indescritível de que, no fim, tudo deu certo.

A sensação indescritível de que não tinha como dar mais certo que isso, e não tem porque ter fim.

Porque o som da respiração de alguém dormindo no seu colo diz claramente “eu estou tranquilo, eu me sinto bem aqui”. E daí você se pega percebendo o quanto sua vida é boa, o quanto você é feliz.

pensando alto #14

Notícia boa pela manhã.

Sono, ansiedade, cópias, assinaturas. Um novo começo.

Não um “recomeço”, porque afinal não houve fim. É mesmo um novo começo, mais um pra nossa coleção. Um começo novo pra marcar uma história que, pelo que quero que dure, também é ainda nova. Porque se a gente começou o principal quando nem sabia direito se queria começar qualquer coisa, imagina agora, querendo!

É grande, é gigante, mas sinceramente é só o começo. Coisa de gente que nem pensa em ter um fim.

Pra você que quer saber da minha vida

Ando sumida, eu sei. Mas desde a última vez que escrevi aqui, algumas coisas aconteceram. Tenho usado o tempo mais pra viver do que pra relatar o que vivi.

Acho que a principal mudança que aconteceu nesse tempo foi a de emprego. Eu precisava dar um “refresh” no trabalho porque, não dá pra enganar, quando se é publicitário a vida profissional guia a vida pessoal. Ela acaba influenciando no jeito como você vê todo o resto. Então, mudei. E depois de dois meses na agência nova estou me dedicando a inverter esses valores, pelo menos na minha cabeça.

Virar essa chave de não está sendo exatamente fácil. É como se eu tivesse pressa que alcançar uma meta sem exatamente saber que meta é essa. Uma espécie de confusão calma, lenta e incômoda. Talvez isso tenha alguma coisa a ver com meu aniversário, que também aconteceu nesse intervalo em que fiquei sem escrever por aqui.

Em março fiz aniversário, 29 anos. Desta vez caiu bem na quarta-feira de cinzas. O nome “quarta-feira de cinzas” parecia um prelúdio do turbilhão de questionamentos e confrontos que invadiram minha cabeça. Sobre o que é amizade, sobre quem são meus verdadeiros amigos, sobre como demonstrar pra quem gosto o quanto gosto e sobre como lidar com expectativas e frustrações. VINTE E NOVE são quase 30, não excluo a possibilidade de eu estar em crise.

Mas pela primeira vez a sensação de não estar sozinha é constante e boa. Um ponto firme de apoio. E entre as mudanças que aconteceram recentemente está a mais importante delas. O que era meu virou oficialmente nosso, e independente do que aconteça durante o dia a certeza é que dentro de casa temos paz. Uma tranqüilidade feliz e natural. É só trancar a porta que os problemas ficam barrados do lado de fora. E assim a gente descobre que precisa de muito pouco de tudo aquilo que procura.

Mas nem por isso vai deixar de procurar. ;]